A Oficina – Capítulo 1

[Atenção, este é um texto fictício de um livro que estou pensando em escrever]

Era um verão quando fiquei sabendo sobre a “Oficina”. Antes disso, a Oficina estava num completo anomimato. A Oficina nunca quis se mostrar.

Eu estava cobrindo uma coletiva de imprensa onde um executivo de uma fábrica de tratores iria falar sobre como tinha conseguido melhorias extraordinárias, tirando a empresa literalmente do buraco, num prazo de poucos meses. Coletivas de imprensa com executivos são um pé no saco. Nunca se sabe como o entrevistado irá reagir, principalmente às perguntas mais polêmicas – mas isso é bom, afinal, temos que vender sensacionalismo. No fundo é mais ou menos um jogo de cartas marcadas: o executivo vai mostrar seus feitos e suas qualidades com seu ego inflado e com certeza os repórteres repetirão a mesma pergunta 10 vezes.

Neste caso da “UPG Equipamentos” a coletiva era com um executivo pouco badalado, mas que conseguiu um feito heróico no mundo dos negócios. A empresa sob sua administração cresceu como nunca, começou a incomodar a concorrência que antes a esmagava e de um mico total se tornou um lugar cobiçado para se trabalhar. Havia muita expectativa sobre o que ele iria falar. Toda a mídia que cobria este evento estava esperando mais um cara estrelinha usando sapatos caros e mostrando seus MBAs.

O calor da sala já beirava níveis caribenhos e o burburinho de um monte de jornalistas reclamando aumentava quando entrou na sala um cara comum. Comum até demais. Você não saberia diferenciar ele do porteiro que nos recebeu na entrada da empresa. Ele usava sapatos comuns, calça jeans e uma camisa com cores e o logotipo da empresa. Tinha um sorriso contagiante e sincero, mas por ter fugido ao figurino tradicional, não chamou a atenção. Todos achavam que era um técnico de som que iria consertar um microfone do palco ou algo assim. Este cara comum, ao invés de ficar em pé como de praxe, pegou uma cadeira simples que tinha no palco, trouxe-a para perto de nós e anunciou enquanto sentava:

– Olá a todos! Bom dia! Desculpem o calor da sala.

Todos os jornalistas ignoraram. Alguns até continuaram conversando entre si. Ninguém perguntou nada. Ele continuou:

– Meu nome é Mateus. Eu vim aqui responder as suas perguntas.

Os 14 jornalistas que estavam alí comigo ainda não levaram a sério. Uns acharam que era uma “pegadinha”. Eu senti que alguma coisa diferente estava rolando, pois o Mateus olhava para todos com uma certa decepção e com uma expressão do tipo “sabia que eles não iriam entender”. Ainda com bagunça na sala me arrisquei a fazer a primeira pergunta:

– Olá Mateus, sou o João Freire da Revista Insight Ecônomico. Antes de mais nada eu gostaria saber qual é o seu cargo para constar no meu artigo.

O entrevistado mais uma vez fez aquela cara “vocês não vão entender” e muito hesitante respondeu em voz baixa e firme:

– Nesses últimos 10 meses nós temos feito um esforço bem grande aqui para não se ater a cargos ou hierarquia. Você pode colocar no seu artigo simplesmente Mateus Tirello, trabalhador da UPG Equipamentos.

A minha primeira pergunta colocou os outros jornalistas em atenção. Não era pegadinha. A coletiva tinha mesmo começado e uma parcela grande dos jornalistas ainda estava em pé, falando ao celular ou tomando cafezinho. Rapidamente todos sentaram e se prepararam. O Jorge, um jornalista mais velho de um jornal de negócios de grande circulação continuou:

– Mateus, já é uma teoria antiga que menos hierarquia é excelente para os negócios, principalmente, vemos isso no mundo da Internet. O que exatamente você fez na UPG?

Mateus respondeu:

– Bem, Jorge, a empresa passava por uma situação difícil a um ano atrás. Estávamos saindo do mercado. Basicamente, mudamos a forma das pessoas conversarem. Usamos técnicas novas, técnicas velhas, mas principalmente, liberamos as pessoas para trabalhar em equipe para resolver os problemas.

Jorge replicou:

– Foi Lean ou Six Sigma que vocês implantaram?

– Nós não nos atamos a nomes aqui, Jorge. Podemos ter usado a técnica X ou a técnica Y, mas tudo foi discutido abertamente em grupo. Nós não “implantamos” nada aqui. Em grupo naturalmente nós aprendemos o que deveria ser feito. Felizmente deu certo – respondeu Mateus.

Nesse momento os jornalistas se questionavam entre si a quantidade de “primeira pessoa no plural” que o entrevistado usava. Coletivas de imprensa com executivos sempre é “eu isso”, “eu aquilo”… O próximo jornalista continuou:

– A Gestão Moderna diz que trabalho em equipe e liderança participativa trazem melhores resultados. Muitos dizem que é um conceito teórico utópico para empresas grandes. A UPG seria uma exceção?

Nesse ponto Mateus deu um leve salto para trás na cadeira.

– Um grupo de trabalhadores que montam tratores e mal terminaram o segundo grau não vão se dobrar ao que “a Gestão Moderna” diz. Aqueles que tinham algum conceito do que é Gestão Moderna não aplicaram isso e sairam da empresa. Para falar a verdade, uma das melhores decisões que tomamos foi abolir a gravata, tirar os gerentes e diretores do escritório e levá-los para as linhas de montagem, para trabalhar com a mão na massa… Uma grande parcela não quis isso e saiu.

Todos se assustaram. Havia rumores no mercado que profundas mudanças organizacionais tinham ocorrido na UPG. Alguns membros do alto escalão tinham saído da empresa há alguns meses atrás, mas todos na mídia julgavam esse fato como um movimento natural de uma empresa que ia mal das pernas. Voltei a perguntar:

– Nos ultimos meses vimos um movimento na liderança da UPG. Muitos sairam e poucos entraram. Isso foi devido à crise na empresa nos últimos meses?

– A liderança nunca realmente existiu na UPG, João. A crise começou para falar a verdade há 2-3 anos atrás quando os bônus diminuiram. Com isso a diretoria e a gerência desceram com seus capatazes no chão de fábrica e acabaram de arrazar com o resto de motivação que existia nos trabalhadores. Logicamente com isso a crise piorou. Podemos dizer que essa camada superior da antiga hierarquia, que não quis sujar a mão na graxa, foi embora. E isso aconteceu porque perderam seus bônus, seus carros, suas secretárias, suas verbas de viagem… Essa enxugada nas finanças também ajudou a sanear a empresa.

A coletiva entrou em alvoroço. O que o Mateus dizia estava dando um prato cheio para manchetes sensacionalistas como “Abaixo à Hierarquia”, “Morte ao bônus”. Virou um circo.

– Você está afirmando que sem diretores e gerentes a empresa melhorou?

Mateus diminuiu seu tom de voz:

– Estou afirmando que na UPG, dada as características únicas dessa empresa, com este histórico, com essa equipe, neste mercado, o que aconteceu é o que eu relatei aqui. Não temos nenhuma receita de bolo para o sucesso, apesar que tenho certeza que o que vai sair na mídia desta coletiva são receitas de bolo com a visão de vocês.

O Mateus caiu nas graças dos jornalistas. As perguntas foram fluindo e as respostas dadas por aquele jovem líder sempre focava o trabalho em equipe. Decisões em conjunto. Comunicação aberta de qualidade e um profundo companherismo entre todos os trabalhadores, sempre discutindo e observando o que dava certo. Mateus citava nomes de diversos amigos de trabalho sem atrelar cargos ou formação. A jornada da UPG naqueles últimos meses era na corda-bamba, mas eles estavam saindo do caos de forma genial. A mensagem geral da coletiva foi: tirar barreiras entre equipes, abolir controles idiotas, achatar hierarquias, liberar a pressão, promover colaboração, abrir as discussões a todo o grupo, aumentar a confiança, trazer o cliente para perto, priorizar o aprendizado, humanismo nos relacionamentos, entre outras coisas. O Mateus fazia um esforço enorme para não mostrar que era uma fórmula mágica ou um novo tipo de moda de gestão. Ele se esforçava para não ter qualquer glória para si, mas sim, compartilhava tudo com seus companheiros de trabalho.

Estava no fim da coletiva quando o Mateus proferiu algumas palavras finais:

– O que aconteceu na UPG foi uma vitória do trabalho em equipe. O foco não era departamentos, cargos, metas, o orçamento… Nos focamos nos clientes e as soluções emergiram. Eu mesmo não tive que fazer coisa alguma. Não me considero um líder. Me colocaram como gerente de produção em uma empresa que vivia uma bagunça com aparência de controle, como muitas outras empresas que vemos por aí. Por fim eu somente deixei as pessoas fazerem o que elas já queriam fazer.

Uma jornalista loira com ar de intelectual estava na fileira atrás da minha. Era uma novata que ainda não tinha tido chance de perguntar nada. Ela fez a pergunta mais importante de todas na minha opinião:

– Ok, Mateus, você não tem cargo ou posição aqui, mas diga para nós, então, ao menos a sua formação!

Ele respondeu rapidamente:

– Olha eu tenho um doutorado em Harvard e dois mestrados um aqui na USP e outro na Europa em Oxford. Sou técnico em mecânica também…

Mateus fez uma breve pausa na resposta. Todos tomaram nota – era um curriculum invejável. O que veio logo a seguir é o que tornou as coisas interessantes:

– … mas o que motivou muitas dessas mudanças na UPG foi o que eu aprendí na Oficina de Marcenaria do Colégio Santa Marta, no ensino fundamental…

“O que ele está falando?” – alguns se questionaram – aquela tinha sido a última pergunta e poucos prestaram realmente atenção. A maioria se focou nas Universidades. Eu notei que Mateus falou sobre a “Oficina” com seriedade, com um sorriso nostálgico, demostrando claramente uma grande satisfação de ter estado alí, sua convicção falando da Oficina foi maior até de quando ele falou sobre Harvard e suas outras formações. Olhei para os lados e ví que muitos não tinham levado aquilo a sério. Meu faro pouco apurado de jornalista tomado por curiosidade me levou a querer investigar mais.

A hora do almoço se aproximava e assim que tive oportunidade peguei meu celular e procurei no Google “oficina colegio santa marta”… a busca não retornou muitos resultados, mas logo no primeiro “hit” apareceu um link “Oficina Experimental do Colégio Santa Marta” com uma descrição enigmática: “Crianças aprendendo na prática em equipe”. Ao clicar no link fui apresentado a um site simplesmente perfeito. Eram cores leves em tipografia de fácil leitura. Os textos eram bem escritos, com muitas fotos, vídeos engraçados e com conteúdo direto ao ponto, uma pérola em usabilidade. Tudo funcionava, mesmo no celular. Pensei comigo: “Eles devem ter pago uma fortuna para uma empresa de design criar um site assim”.

O site dizia que a Oficina eram atividades extra-curriculares dos alunos do colégio, fora do horário das aulas “comuns”. O conteúdo do site era muito rico, mostrando crianças (entre 5 a 12 anos) fazendo coisas pouco usuais como cozinhando, construindo móveis escolares, praticando música de todos os tipos – de rock pesadíssimo a música erudita – entre muitas outras coisas. Essas crianças costuravam tecidos, programavam computadores, criavam designs… Alguns videos eram aulas das próprias crianças para elas mesmas. Entre todos os conteúdos, o que mais chava a atenção era a construção de um barco a vela realmente grande chamado “Amazonas”.

Fotos e videos mostravam crianças de maneira bastante informal, conversando, sorrindo, se ajudando, brigando (claro, são crianças) e algumas vezes fazendo uma bagunça fora de controle. Minha curiosidade sobre o que era a Oficina foi aumentando. Num vídeo sobre o projeto do barco “Amazonas” um garoto de 9 ou 10 anos mostrava como fez para resolver um problema no fechamento do casco usando madeira. Durante o filme ele reclamava duramente que o “cameraman” estava filmando mal:

– “Olha! Filma direito! Dá zoom aqui! Pára de filmar o chão!” – e depois de um tempo, com tantas reclamações, a camera foi largada no chão com cuidado ainda ligada. A lente focou um pouco de serragem e madeira que tinha ali. O garoto ficou louco:

– “Isabela! Volta aqui pra terminar esse filme! Isabela!”

A câmera saiu do chão e filmou a cara do garoto dizendo “Que falta de respeito!” e logo em seguida enquadrou a Isabela correndo e pulando, fugindo dalí. Isabela devia ter 5 ou 6 anos. Não era um profissional de filmagem, nem um professor ou funcionário da escola – era uma criança. Olhei todos os vídeos e fotos novamente e notei que eram os próprios alunos que faziam o conteúdo – filmes, fotos, textos – de todo o site!

Fiquei ainda mais espantado quando já em casa, no fim daquela tarde quente, no meu notebook, descobri que o próprio site também era um projeto dos alunos e alunas: o web design, a usabilidade, a manutenção – tudo – era feito pelas crianças da Oficina. Eu tinha que ver aquilo de perto…

Não sei se aqui é o lugar certo, mas tinha que testar isso. Pergunta: Continuo?

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rodrigoy

Instrutor e Consultor Sênior - ASPERCOM

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18 Comments

  • Paulo Moura

    Reply Reply 08/06/2012

    Sim. Parte 2…

  • “Pergunta: Continuo?” Não continuar e deixar um bocado de pessoas morrendo de curiosidade?? Claro que deve continuar.

    Só uma coisa, não encontrei a empresa citada, nem o site da Oficina. Seria interessante alguns links.

  • julio caldas

    Reply Reply 08/06/2012

    Sim, esta história deve continuar. Bons ensinamentos.

  • Tiago! É uma ficção! É um livro que estou escrevendo!

  • Fabio Nascimento

    Reply Reply 09/06/2012

    Como assim um livro ?

    Você já está em estágio avançado ? (Quero comprar) Qual o tema principal ? (É do meu interesse)

    Parabéns !! Achei fantástica essa estória ….

  • Muito boa a história. Ansioso pela parte 2. Como dizemos por aqui: “toca o barco”! 😉

    A “Oficina” que sonho para meus filhos é parecida com esta aqui: http://mobile.slate.com/articles/technology/future_tense/2012/06/maker_faire_and_science_education_american_kids_should_be_building_rockets_and_robots_not_taking_standardized_tests_.html

  • Edson de Lima

    Reply Reply 11/06/2012

    Claro! E depois, vamos montar a Oficina 😀

  • Reinaldo

    Reply Reply 11/06/2012

    Lembrei da cultura da http://www.gore.com/ conhece?

  • Caroline

    Reply Reply 13/06/2012

    Sim… adoraria ler a continuação =D

  • Luiza

    Reply Reply 13/06/2012

    Continua! Aguardando a Parte 2…. 😉

  • Paulo Mariano

    Reply Reply 14/06/2012

    Por pouco ia pesquisar a oficina antes de ler os comentários.

    Para escrever dessa forma o Rodrigo Yoshima aprendeu em equipe ou foi com dedicação individual? Excelente texto!

    A pergunta “Continuo?” tem resposta unânime.

  • Rodrigo, achei realmente que era de verdade hehe. Mais mesmo sendo fictício está muito bom.

    Continuo aguardando a continuação.

  • Continua! Tá animal!

  • Gerson Reis

    Reply Reply 04/09/2012

    Fiquei curioso pra saber como continua…
    A história é boa continua sim!!

  • Carla

    Reply Reply 04/09/2012

    sim! continue, você está indo muito bem!

  • Dirceu Jr

    Reply Reply 27/10/2012

    Rodrigo claro que deve continuar.
    Livros como “O Maior Vendedor do Mundo” e “O Monge e o Executivo” que além de uma ficção bem escrita são acompanhados de bons ensinamentos encantam a todos.
    Parabéns pelo texto inicial, já pode deixar um livro reservado.

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